Breves apontamentos sobre a mediação entre memória e história à luz do phármakon platônico

Nathália Lipovetsky e Silva

Resumo


Escrever a história pode ser um remédio ou um veneno para a memória, dependendo apenas de quem o faz e de como o faz. A discussão em torno do vocábulo phármakon (que em grego, significa, dentre outros, remédio e veneno ao mesmo tempo) no diálogo Fedro, é iniciada por Sócrates, ao narrar um mito sobre o surgimento/ invenção da escritura, que é apresentada, por seu criador, como um phármakon. A escrita, enquanto phármakon, representa com precisão o problema enfrentado na mediação entre memória e história, diante do constante embate entre a verdade da história e a veracidade (a fidelidade da memória). A verdade da história e sua relação com a veracidade está essencialmente ligada à autonomia epistemológica da ciência histórica frente ao fenômeno mnemônico. Ricoeur empreende uma crítica à pretensão do saber de si da história de se constituir em saber absoluto, em reflexão total, sobretudo como pensado pela filosofia romântica e pós-romântica alemã e, assim, “abandona” o hegelianismo afirmando que a consideração pensante da história feita por Hegel foi uma operação interpretativa, um fenômeno hermenêutico, que se submete, como qualquer outro, à finitude, pretendendo, então, com Gadamer, pensar “após Hegel”. O que se conclui, com Ricoeur, é que a oposição entre a memória e a escrita não é total, uma vez que o verdadeiro discurso está escrito na alma, um discurso da verdadeira memória, de uma memória feliz, certa de ser do seu tempo e de poder ser compartilhada. É dessa maneira que a escritura pode ser encarada como um risco a se correr, porque a escrita da verdadeira memória com palavras verdadeiras é um semear.

Palavras-chave


Phármakon; Memória; História; Paul Ricoeur.

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